O sal de Taiki
“Pior do que a morte é a solidão… e a minha vida é uma completa solidão”. Murmura Taiki após um breve período de ausência mental.
Ao largo ouve-se uma música alegre, saída de um automóvel parado à entrada do jardim.
- Odeio música! – É um grito saído das profundezas do seu ser.
- Que estupidez! – Escuta.
Boquiaberto volta-se na direcção da voz.
De repente, ali naquele momento, apeteceu-lhe falar com alguém desconhecido. Era-lhe mais fácil abrir-se com alguém que não conhecesse, do que com aqueles que já conheciam o seu drama e o olhavam com compaixão. O que não queria era que tivessem dó de si.
E ali estava, à sua frente, como que caída do céu, a dona daquela voz melodiosa, de tonalidades do nascer do sol, preparadíssima para uma troca de ideias.
- Queres-me dizer qual é o problema? – Pergunta a desconhecida.
Taiki ainda hesita:
- Pro… problema?
- Claro! Quem não gosta de música só pode ter um grave problema. Desde quando é que não gostas de música? – Pergunta a jovem.
- Desde hoje… agora… – mal balbucia Taiki, revelando a sua amargura.
A jovem inquire-o com o olhar e este estende-lhe a carta, decidido a confiar-se-lhe, carente como estava de um ombro amigo.
Ela lê a carta e emociona-se. Aconselha-o a seguir em frente, pois não pode mudar nada do que se passou. Agora só o futuro importa.
- Quem olha para trás transforma-se numa estátua de sal!
- Nós nem nos despedimos… – soluça Taiki, acabando por dar liberdade ao seu pranto, largando ali, naquelas lágrimas, o sal que começara a aprisionar.
- Chora… é melhor chorar do que ficar com um nó na garganta!
A jovem abraça-o, e ali se dá o início de uma amizade…
(thanks dear Fa, bj grande te deixo)
o baloiço
Está frio. Nunca mais lá chego. Fico com a sensação que estou a subir interminavelmente pelos degraus rígidos e húmidos.
“Será que ela vai gostar de me ver?” Como matuteia minha frágil mente…!
Há muito que não vinha aqui, desde a despedida da minha querida Loiris.
Deve faltar pouco…! A brisa nauseabunda que paira leva-me a crer que o condomínio impera pelo ócio.
Puxa…como me está a custar subir…! Será que estou a subir para o céu? Admito que adoraria…iria encontrar concerteza minha amada. Iria abraça-la tão profundamente que não voltaria descer.
“As estrelas são tão lindas que o seu brilho nos cega de beleza!” – dizia sempre Loiris nas nossas noites de paz, abraçados pela noite a dentro, na poltrona micando o céu.
“Eu adoro a cegueira my princess, e tens razão no que dizes pois vivo a cegueira com paixão abraçado a uma estrela! E não quero ver mais, quero ser cego para sempre ao teu lado…!”
- Olá Taiki! – era a mãe de Loiris, que até me assustou um pouco…pois estava mergulhado nos meus pensamentos.
- Ol..á dona Mary!
- Que tens feito seu malandrinho? Há muito que não te via…!
- Tenho andado, divagando por aí…!
- Filho, eu sei que tens andado mal…mas sabes que a nossa querida Loiris está bem na casa de Deus e tem torcido por nós…por isso começa já a sorrir antes que me chateie …!
Não querendo desanimar, lá soltei um disfarçado sorriso.
- Ohh, que sorriso tão maquilhado…ai ai,…entra, entra…!
Mal entrei, meu ser foi esmagado com a visão de uma lindíssima foto de Loiris presente no móvel do hall de entrada.
“Não imaginava que a cruz fosse tão pesada…as saudades, o teu vazio tem-me destruído my love…tem sim…!”. Estou diferente. Outrora egoísta, frio, rígido…e agora um mole, inseguro…quero lá saber de mim…! “Oh my God…”
- Um chazinho de cidreira assenta bem nesta humidade não achas lindo? – perspicaz era Mary a interromper quando pressentia tristeza.
- Não seria má ideia…! – (se bem que preferisse um whisky)
- Malandrinho, as tuas ironias não me escapam … rs … sei que adorarias um cálice com paladar escocês…mas sabes que a vida tem pernas não para se ficar acomodado na infelicidade…mas sim para andar, com coragem e alegria…não sabes?
Como admirava e invejava a forte alma da dona Mary.
- Só sei que nada sei.
- Ohh, não me venhas com Sócrates…já basta o nosso andar por aí com magalhães…eheh!
Soltou-se-me um sorriso genuíno desde que Loiris se foi.
- Yes, já te apanhei um sorriso verdadeiro, agora é só falar de outros magalhães e teremos uma noite de comédia..eheh! – ela referia-se ao vizinho James Magalhães que fez uma viagem com a esposa em contra-mão e que só deram conta do feito quando chegaram ao destino, sem estragos.
- Dona Mary, gostava de ir ao quarto de sua filha…! – estranho ter tido tal ideia.
- Oka..y filho mas o que…ok vamos… os dois que dizes?
- Po..de ser!
Como me custava … minhas pernas tão pesadas estavam…não do cansaço da subida, mas do medo de ficar afogado em tristeza.
-Vamos Taiki?
…
Estava tudo igual…tão arrumadinho, tão perfeito … comparável ao brilho de minha outrora estrela. Sinto meu corpo arrepiar…sinto-te Loiris…sinto teu ser me sussurrando.
Inesperadamente, dona Mary chora…e chora…!
“Minha querida filha…minha Loiris…minha menina…tão linda…!”
Como se empurrado por algo…abracei-a profundamente!
- Ohh Taiki, até as pedras tocadas pela dolência se esmorecem, ficando polidas de sofrimento…!
Tal desabafo fez confirmar o que suspeitava…que o calor da tristeza entra no mais ínfimo gelo que criamos no nosso coração. Já imaginava que toda aquela alegria era manobra de tapar a tristeza que dona Mary tinha. De repente Mary olha para mim. Tão profundos e angustiantes eles estão. Incisivo e molhado olhar espetado no meu. Ela me esconde algo, sinto!
Suas mãos frias em contraste com o calor da minha face…! Suavemente acaricia-me…e…
- Filho vais me perdoar?
- Mas…perdoar o quê? Não tenho nada para lhe perdoar…!
- Terás sim, e espero que me perdoes…!
- Mas…?!
- Perdoas-me Taiki?
- Mas o quê dona Mary? – já estava algo irrequieto.
Um presságio deambulava pelo o ambiente. Sinto.
- Lindo, vês aquele envelope na mesinha de cabeceira?
- Sim, vejo…
…
- Aquele envelope é para ti, Taiki…
- Para mim?! – Taiki continuava inquieto, mas agora ansioso também.
- Promete-me que vais ler o que lá está escrito com o coração, filho. Só assim poderás um dia perdoar-me e compreender tais palavras.
- Está bem dona Mary, mas eu não sei se… não sei…
- Não sabes se me consegues perdoar… eu compreendo. Vou te deixar sozinho enquanto lês… – e dona Mary retirou-se; parecia sofrer de uma dupla perda. Perder a amizade de Taiki poderia se tornar ainda mais doloroso que “superar” a perda da filha.
- O que tem este envelope? – não parava de se interrogar. Sinto as mãos frias e o coração acelerado, que ansiedade, que medo, que angústia! Talvez seja melhor não ler… talvez não esteja preparado… eih, não! Foi a minha amada que me escreveu esta carta, não a posso recusar… – contrariou os seus pensamentos e segurou a carta.
Taiki estava indubitavelmente confuso e inseguro. Resolveu despedir-se de Dona Mary, que nada disse, e ir vaguear pelas ruas da vila, pois as recordações daquele quarto eram demasiadas fortes para conseguir concentrar-se, parecia sentir ali a presença de Loiris. A meio do caminho, encontrou um jardim, verde e florido, um lugar sereno e familiar. Sentou-se num baloiço – e que belo baloiço! Enquanto baloiçava e ouvia o chiar das correntes, recordou-se da sua infância e de como sentia-se seguro e protegido naquela altura, na verdade, era esse sentimento que agora precisava…
-Vou abrir a carta! Está decidido! – Parou o baloiço e abriu vagarosamente o envelope como se fosse, de facto, uma verdadeira preciosidade que merecia todo o cuidado ao ser manuseada. A folha já estava amarelada, era mesmo a letra de Loiris, oh há tanto tempo que não via de perto algo da minha amada! Aproximou-se um cão vadio e interrompeu a admiração de Taiki… “Oh amigo, não tenho nada para ti…- e fez festinhas ao cão – mas vamos lá ouvir o que tenho aqui…”
“Querido Taiki, a razão pela qual te escrevi esta carta foi não ter sido capaz de te ver sofrer a minha dor e a minha ausência. Como poderia suportar olhar-te nos olhos e ver todas as estrelas apagadas? E o teu sorriso escondido? Não conseguiria, Taiki.
Prepara agora o teu coração porque o que te vou confessar pode ser muito doloroso para ti, meu querido, mas tens de saber, não te consigo ocultar isto para sempre, não é justo para ti! Mas espero que consigas perdoar-me a mim e a minha mãe que durante todo este tempo tem sido a minha cúmplice e que suponho que esteja a precisar imenso da tua amizade, neste momento.
Há muito tempo, foi-me diagnosticada uma doença rara, aparentemente assintomática. Eu sempre soube que a minha esperança de vida era muito reduzida e quando te conheci, Taiki, desejei como nunca viver para sempre, ou pelo menos, viver mais tempo do que aquele que me estava destinado. Na verdade, eu já só tinha mais um ano de vida… não fui capaz de te dizer isso, Taiki! Perdoa-me ter feito planos contigo sabendo que a minha vida já está numa fase terminal e a qualquer hora o meu coração pode parar. Se calhar, não deveria te ter feito perder tempo comigo, mas se estou viva até hoje, 5 meses a mais do que estava previsto, é graças ao teu amor…obrigada!
Taiki é com muito carinho que te peço: não deixes de realizar os teus sonhos, quer eu esteja ao teu lado ou não, eu estarei sempre no teu coração. Nunca te esqueças disso, meu amor! Quero que sejas feliz, quero que concretizes todas as coisas que me contas hoje… não quero que deixes a tua vida tornar-se apática, não quero que pares os nossos planos só porque já não posso estar ao teu lado. Continua a lutar, luta por mim, vive a vida como não pude viver, por favor, Taiki, não cruzes os braços nem desperdices a oportunidade de viver e ser feliz.
E perdoa-me, eu preciso que me perdoes, Taiki!
Tenho de despedir-me, vou passar hoje a noite no hospital, tenho medo de fechar os olhos e nunca mais voltar a ver-te… mas ficarei para sempre contigo! Um grande beijo e… tens uma missão, lembras-te? Cumpre-a por nós.”
Taiki ficou anestesiado… enquanto lia a carta, pareceu estar mesmo a ouvir a voz da sua amada Loiris, não pôde interromper a leitura, absorveu aquelas palavras como se isso fosse o que agora o mantivesse a respirar!
Não chora, não sorri, não grita, o seu mundo parou naquele baloiço. Que deserto na alma!
Conseguirá Taiki recuperar o fôlego?
(F&Deza)
não consigo…
o silêncio está ali…
a lua acolá…
a tristeza aqui…!
(…)
quero esquecer…
nao consigo…
será que quero mesmo?
estou perdido…
nos pensamentos…
sei que estou triste…
mas também vislumbro…
alegria, e sorriso da alma…
(…)
a luz já está longe…
mas a tristeza continua…
e bem perto…
(…)
quero te esquecer…
…nao consigo…
ajuda-me destino…
ajuda-me tempo…
(…)
estou só …
nos meus pensamentos…
porque nao consigo esquecer-te?…
porquê?
será que nada acontece por acaso?
é o acaso o nao poder…
esquecer-te…?
(…)
quero esquecer-te…
não sei porquê…
apenas sei que quero…
(…)
faz-me doer…
estás lá…
e estás cá…
o impossivel sorri-me…
o tempo está longe…
o destino mudo…
(…)
quero esquecer-te…
e nao quero…!
quero desligar-me…
de ti…e nao quero…
quero que estejas longe…
e nao quero…
quem és tu?
porque me provocas…
…turbilhão de desespero?
quero-te e nao te quero…
quem és…?
eu sei quem és…
e nao sei…
(…)
quero-te esquecer…
e nao quero…
(…)
o silêncio sussura…
minha alma…
despe meu ser…
fazendo cair a mascara.
(…)
estou cego…
eu sei…
não de amor…
mas da vida…
estou redundante…
vejo um caminho…
cheio de buracos…
de lágrimas…
não, não tens culpa…
não tens…
ou tens?…
vem…please…
vem…NAO!…
não venhas…
tenho medo…que vás…
muito medo…
eu vou…NÃO!
tenho medo…de vir…!
o impossível agarra-me…
convida-me para ir…
oferece-me um xarope…
para te esquecer…
estou sem forças…
desculpa…
mas não consigo…
porra para o xarope…
não tem efeito nenhum…
não consigo…
vou com o impossível, …
mas não consigo…!
sorry…!
até…
o sol foi-se…
o frio beija a face…
o banco hirte…
a ponte firme…
rugidos abraçavam a estrutura…
mas a força ditava-se(!)…
cansado…
só…
sei, compreendo…
sei…
a beleza nasceu…
a flor já se vê…
a arte respira…
adora-te, mas vai-se…
és boa, és má, és tu…
gosto assim…
vou-me…
o mundo acaba?
só Deus sabe…
o teu silêncio fustigou-me…
e muito…
mas o som e o aconchego…
da…estrutura, da arte…
suavizou minha alma…
obrigado a vcs…
ponte, banco, solidão
ai solidão, companheira fiel…
foram a minha…
companhia…
do tempo magicado…!
hoje vou-me…
voltarei um dia, tlv…
sim voltarei…obrigado!
I need…
sinto tua falta…
nao sei onde estás…
(ou) se estás…
se existes…
se vives…
sinto tua falta…
ter ou nao ter…
ser ou nao ser…
sentir ou não sentir…
sinto tua falta…
I need…
my God…
yes…
Destination?…
my God…!
I need.
a música (II)
O vazio…a solidão…infestavam o ambiente do singelo quarto. Ele a olhar para o tecto e a reaviver os momentos passados. “Eu sei que tu não compreendes…mas entende-me…não quero que sofras…nem eu…que já…” Tal frase dita pela sua querida Loiris frevilhava no seu coração. Sem a presença dela as forças foram rapidamente consumidas e o desprovido calor humano acentuava mais a dor nele. Subitamente as janelas se abriram e uma folgada de ar fresco abraçaram os lencois da cama empirrando com a preguiça dele. Saiu da cama devagar com as forças que lhe restavam…e foi à casa de banho. Antes de tudo, olhou-se ao espelho e reparou que tinha a cara osfucada pela mágoa. “My god, why?wh—y?”…
De cabeça inclinada para o chão jorrou lagrimas de dor…
Tocou o telemóvel… “Olá migo tás fine? Hoje não vais trabalhar, ou não precisas de boleia?”…diz o interlocutor. Silêncio intrometeu-se na ligação…”Migoo, tás aí? Tás-me a ouvirr?”…timidamente ele murmorou algo…”sim estou…e não vou trabalhar…!”, “então que se passa? Tás doente?” …”estou cansado Roni…não vou sair de casa” “cansado? Ei pah, passa-se algo…” “preciso apenas de descansar, de estar sozinho…tá…e olha hoje à noite não vou sair para tomar café tá…! Preciso mesmo de descansar e pensar…” “pensar?! Uii, passa-se mesmo algo migo…!”, “Roni, não insistas…não te preocupes comigo tá, …, agradeço a inquietação, mas apenas é isso…preciso de descansar e estar comigo…pensar…!”, “ok caro amigo…ok…sabes que podes contar comigo…depois dá noticias tá?”, “darei…um abraço carissimo e bom dia de trabalho…”. De novo o silêncio a assombrar a casa. Ele desejou que a conversa durasse mais tempo. Levemente foi à sala e ligou o radio, …, estavam a dar noticias…as tipicas noticias, ora do transito, ora das politiuices, ora de desporto…enfim…virou-se de costas, cabisbaixo…estava ele a chegar ao quarto e … aconteceu algo que travou o passo…começou a dar a música, a tal…! Novo ataque de dor consumiu-o, mas desta vez sua alma, estranhamente, sofreu um enxame de forças positivas. “Vou à luta, não posso deixá-la carregar a dor, a cruz sozinha, não posso não! My God ajuda-me…my God ajuda-lhe!…”. E foi precisamente nesse dia, nesse momento que ele decidiu abandonar o emprego para ir ter com ela. Ele trabalhava numa empresa de consultoria, ganhava bem, era um trabalhador com peso…era pois um bom profissional e como tal seus superiores gostavam dele. Ela vivia a aprox. 300km dele. A distância foi uma matreira para eles, mas como eram fortes o amor florescia sem medo. Agora, a situação era outra e ele decidiu ir viver com ela…acompanhá-la na dor…dar-lhe alegria…pessoalmente!
Estava um tempo nubloso…o vento roncava de tal forma que ele teve de ir fechar as janelas do quarto. A ansiedade era tanta que pouca coisa pos na mala. Vestiu um casaco, fez a cama, deu uns goles de leite fresco, saciou umas bolachas de chocolate, e lá foi…! A descer as escadas do prédio ouvia o agitado tempo lá fora. Chegado ao carro, meteu a mala no banco de trás e rapidamente entrou no carro. Estava pois muito vento e frio e pelas sombrias nuvens corria o presságio de um brusco temporal. Antes de arrancar telefonou à sua mãe a contar-lhe a decisão que acabou de tomar.
- Tou…Mãe tu sabes…eu preciso ir ter com a Loiris, ela precisa de mim…
- Mas tens a certeza que será essa a melhor decisao filho?
- Sim, não há nada mais importante para mim do que a Loiris…
-Pensa bem filho…
- Já pensei mãe e já tomei a minha decisão. Quando chegar ligo-te…
-Está bem filho, cuidado, está mau tempo…
Estava um tempo horrivel, chovia muito, o vento dançava que nem louco…! A viagem cheirava a monotomia exarcebada. O nevoeiro deambulava em força pelas redondezas. PUMM! Um choque frontal. Um carro fora de mão embateu em força no carro dele.
“Tou, Loiris…minha que—rii-daa Loiris…”, o pranto de choro e de dor agitava o telefone. Era a mãe dele a tentar falar do sucedido, do acidente. “Tou, dona Amélia, como está?” … “Q-u—er-ia..,dizer algo enquanto me sobram forças para tal…!”, “Meu filho teve…” (choro de pranto) “Que se passa dona Amélia?” Loiris teve um sobressalto de aflição, de dor antecipada, de um sopro de pressagio negativo…”Que se passa dona Amélia, que se passa?…:( conte, conte…:( “ “me—u filho, meuu querridoo filho teveee um acidente graveee…e estáa agoraa no hosspitaal em esttaaddo muiiito crriittiiccoo”. Loiriss caiu…! Foi como se as forças tivesse sido totalmente sugadas por uma força negra. A voz da velha mantinha desperta Loiris. Combinaram se encontrar em casa de Loiris, pois ele estava internado num hospital perto de casa de Loiris…!
- Como é que isso pode acontecer? Sinto-me tão culpada por tudo isto… – desabafava Loiris – eu não devia ter-lhe contado, eu… eu …
- Ele gosta muito de ti Loiris e por amor não medimos esforços…
- Foi a decisão mais bondosa que vi no meu filho, sacrificar-se pelo amor por para abraçar a dor e caminhar ao teu lado para carregar a cruz do sofrimento! Foi sim a decisão mais …(pranto de choro) …Ele que abandonou o emprego para vir ter contigo, ele que…o amor…
- Eu não queria ser um peso na vida dele… sinto muito por tudo isto… eu nunca iria perdoar-me se… se…
- Não digas nada filha…
Loiris já não ia ao tratamento de quimio às 4 dias…a fraqueza atacava-a de forma brutal. Pouco comia…pouco dormia…estando todos os dias ao lado dele, a olhar para ele, a falar para ele, mesmo estando este em coma. Punha muitas vezes a musica deles, a tal…que era mais, do que nunca, motivadora ouvi-la, senti-la…!
Coração de Loiris deixou de bater. Sua mão agarrada à mão dele…estava fria…! O desaparecimento do calor humano provocou o despertar do coma dele. Ele acordou e olhando para ela… Parecia um sonho, um pesadelo, a sua amada, a sala fria e branca do hospital, estaria vivo ou morto?! Ainda confuso tentava falar com Loiris, que insistia para que não se esforçasse e se mantivesse em silêncio… seus olhos falavam… na língua do amor não era preciso palavras… Aos poucos a sua consciência foi voltando e tudo à sua volta começou a fazer sentido. Loiris tentava conter-se, não queria mostrar-se fraca, queria apoiá-lo naquele momento difícil, embora também ela estivesse fragilizada. O olhar inquieto dele assustava-a, estaria a sentir dores? A presença do médico parecia não acalmá-la…
Com o passar do tempo, ele estava melhor, já conseguia fazer grande parte das suas tarefas diária sem grande esforço e Loiris estivera sempre do seu lado. Trocavam forças entre si, dia após dia, havia algo muito forte entre eles… Loiris buscava forças na recuperação dele e ele buscava forças na vontade que sentia de ajuda-la a vencer a doença, que ameaçava a felicidade de ambos.
No entanto, era evidente o desgaste que ambos sofriam com tudo que se estava a passar… se por um lado estavam unidos, por outro o sofrimento tomava conta deles… não queriam subcarregar um ao outro… Por isso, aos poucos foram se afastando, involuntariamente. Até que um dia Loiris disse-lhe que talvez agora precisassem estar um pouco longe um do outro, para recuperar do stress que tinham passado durante os últimos meses…
Foi provavelmente a conversa mais dificil que alguma vez tiveram, mas Loiris sentia a necessidade de estar sozinha para encontrar ela propria a sua força, a sua vontade de viver, o seu amor proprio, só assim a seu ver poderia viver a nova oportunidade que a vida lhe tinha dado. Ele porém não se pode conter perante tal noticia, as lagrimas escorriam-lhe pela pele pálida, enquanto ela tentava explicar-se… não podia acreditar, agora que estava tudo bem iriam separar-se? Tinha abandonado seu emprego, sofrido um acidente que quase lhe tinha tirado a vida… era impossivel conformar-se com tal decisão…
- Preciso que me compreendas… – tentava Loiris convencê-lo.
- Não me peças isso, por favor. Eu amo-te!
- Eu também, acredita.
- Não consigo…
Diante de tal resposta, imediatamente, os olhares descruzaram-se, ela virou-se e foi em direcção ao carro. A noite estava fria como nunca estivera, as estrelas apagaram-se, a lua escondeu-se nas nuvens e o jardim, onde antes costumavam estar, parecia-lhe agora um deserto. Deixou-se cair na relva, antes macia e suave, agora áspera. Enquanto chorava a dor em silêncio, a brisa nocturna trazia-lhe o perfume das flores,flores que outrora oferecera a Loiris carinhosamente , o silêncio enlouquecia-o, parecia ouvir a música deles, a voz dela, os sorrisos… barulhos estranhos perturbavam o seu sono, antídoto que agora ansiava, pois viver sem sua amada era pior do que muitos acidentes… Desejou ali ficar e morrer.
Plash!!!…E lá levou com um balde de água fria. Estava com a cabeça tombada no balcão com o seu copo de whisky vazio ao lado…!
Ele reviveu o passado pela dormência da bebida.
Compreendeu, enfim, porque amava a música, a tal…e porque a bebida era o seu grande amigo.
(A vida tem muitos caminhos…cabe a nós trilhar…)
(Fontez&Deza)
(thanks dear…e volta, deixa-te de coisas…)
a música
Ele era musico e não sabia. Vivia dos sons, das palavras. Fazia musica e cantava poesias.
À noite voltava ao bar. Aquele whisky já era absorvido num gole. Para ele não tinha qualquer gosto de whisky. Já não fazia cara feia como outrora. E depois do primeiro copo, vinham sempre alguns outros. Amigos de infância encontravam-se ali naquela mesa de bar para por a conversa em dia.
Uns ficavam por horas a fio sem perceberem a passagem das horas. Outros saiam ainda antes da primeira garrafa.
Ele permaneceu uma vida inteira sempre ali no mesmo local onde tantas mulheres queriam encontrar homens de sorrisos largos e onde tantos homens se refugiavam na bebida para esquecerem amores passados.
Mais um gole.
A poesia vinha. As palavras dançavam freneticamente na sua mente. No bolso das calças, uma folha de papel amarrotado e um lápis de carvão. Anotava uma ou outra frase que chegava sem hora marcada e para não desaparecer na neblina da noite, era cuidadosamente passada para o papel.
Escrevia sobre o amor. Sobre a esperança. Sobre os amantes.
Depois juntava tudo numa mistura explosiva de som.
E em cada verso, mais uma letra de musica surgia, mais uma melodia para os seus ouvidos. Só para os seus… não as dividia com ninguém.
Era um segredo só dele. As musicas que escrevia para o mundo não fugiam daquelas linhas. Porque era algo tão dele, que não sabia a quem mais havia de interessar.
A mulher já passava a esfregona no chão. As luzes começavam a perder a vida.
O mundo estava agora a adormecer naquela sala. Lá fora acabara de despertar.
Mas ele continuava sentado de frente para o balcão, de mão no copo de whisky, o mesmo whisky de há tantos anos, e na outra um cigarro. O mesmo cigarro de enrolar que fuma tantas e tantas vezes por dia.
Era hora de partir. A casa já o esperava muda e impaciente. A almofada amarelada era a única que lhe afagava o pensamento. Os lençóis corroídos cobriam-lhe o corpo.
A casa não era tão pequena assim. Tinha uma varanda enorme sobre o nada.
Divisões desalojadas de moveis. Vazias de conteúdo. Salas grandes às quais ele dava vida com som. Achava ritmo em qualquer pedaço de madeira, tambor ou sucata. E aquela casa enchia-se de gente. Estranhos que nem ele conhecia. Pessoas que habitavam as letras das musicas que ele compunha.
Era o som que lhe alegrava os dias cinzentos. Era a musica que dava àquele homem uma esperança de recomeço todos os dias. Mas aquele encontro não surgiu por acaso.
(…)
Naquela manhã o céu estava límpido, fios delicados e quentes sobressaltavam em pontos do cubículo. Loiris estava linda, resplandecente…a sua presença emergia novo ar à casa…(aliás a qualquer lugar)… a sua palidez transpirava bondade. A esbelteza era contagiante…!
A primavera de outrora, o grito, o canto, o cheiro…golpeavam no ar que se respirava. Estava ele a contemplar Loiris, “Se pudesse, ficava aqui eternamente…!”
O medo beijava a sua face… o presságio de más novas infestava as redondezas.
Brutalmente, ouviu-se :”Vou-me embora amor”. O choro, em pranto, espalhou-se como se de uma sentença perpetua se tratasse. Tal frase foi como um soco para ele…e bem no fundo do seu coração. Ficou fora de si, estático. Tal sensação se equiparava com um sintoma de desmaio. O tempo ficou congelado…ela pressentindo tal abraçou-o! O contraste era horripilante … o choro fustigante dela e a brancura rígida dele, mas a ferida interna jorrava e muito. As forças já tinham fugido…nenhuma palavra emergia na mente dele, até que ela disse algo “Querido sabes bem que te amo, mas não estou pronta para viver a vida contigo..porque…, porq-u–e…não estou!”. Nele a brevidade de uma estátua continuava…parecia um morto-vivo. “Eu sei que tu não compreendes…mas entende-me…não quero que sofras…nem eu…que já…”, a fugacidade deu-lhe forças para interromper e de costas para ela murmurou, “W–h–y? Why Loiris?”
Algo não batia certo naquele quadro…O amor existia nas duas criaturas, nos seus corações…o calor da cumplicidade entre eles efervescia, mas algum enigma por ali deambulava. Novo choro atacou Loiris…e ele ficou muito tocado e abraçou-a ficando depois virado cara a cara para ela…! As lágrimas brilhavam de tristeza…as rosadas bochechas cintilavam de vermelho…o nariz pingava abundantemente…Loiris deixou cair a cabeça no ombro dele…e ele de novo levantou…e surgiu o terramoto psíquico “Tenho cancro amor…vou morrer não tarda!”.
A queda foi inevitável. De joelhos no chão com a cara apertada na barriga de Loiris, …, começou estranhamente,… a dar uma música de amor que eles gostavam muito, uma música que eles cantavam juntos…! A letra já ia no adro, “… aqueles que têm coragem para amar deveriam ter coragem para sofrer…vamos conseguir…va–mo-s, la, la .., la-láaaaa, …lá-láaaa…”.
Põe-se de pé e vigorosamente disse: “Vamos conseguir Loiris, vamos sim amor…não te abandonarei!”… O silêncio conjugou-se com o choro dela…e a ferida interna dele.
(…)
Naquela manhã ainda ficaram juntos. Ainda tomaram “Monte Velho” juntos na varanda a olhar o céu. Ainda fizeram promessas de amor eterno. Ainda dormiram abraçados. Outro dia chegou sereno e calado. Um frio imenso cortava a cama e as duas almofadas. Ele estendeu o braço para o primeiro beijo da manhã, mas do outro lado só enlaçou uma almofada vazia. Ela não estava. Nem ia voltar a estar. Saiu muito antes dele acordar, deixando apenas a recordação de um amor naquele som primaveril.
(to be continued…)
(Fontez&Amy, inspiration)
a mentira…
mentir é um atalho…
mentir é uma mascara bonita…com um interior feio…
mentir é tentação…
a marota aproveita a ferida da verdade…
mentir deturpa a alma…
remediar é insuficiente…mas prevenir chega e sobra…!

