Longos percursos

Meet way

a música

com 5 comentários

Ele era musico e não sabia. Vivia dos sons, das palavras. Fazia musica e cantava poesias.
À noite voltava ao bar. Aquele whisky já era absorvido num gole. Para ele não tinha qualquer gosto de whisky. Já não fazia cara feia como outrora. E depois do primeiro copo, vinham sempre alguns outros. Amigos de infância encontravam-se ali naquela mesa de bar para por a conversa em dia.
Uns ficavam por horas a fio sem perceberem a passagem das horas. Outros saiam ainda antes da primeira garrafa.
Ele permaneceu uma vida inteira sempre ali no mesmo local onde tantas mulheres queriam encontrar homens de sorrisos largos e onde tantos homens se refugiavam na bebida para esquecerem amores passados.
Mais um gole.
A poesia vinha. As palavras dançavam freneticamente na sua mente. No bolso das calças, uma folha de papel amarrotado e um lápis de carvão. Anotava uma ou outra frase que chegava sem hora marcada e para não desaparecer na neblina da noite, era cuidadosamente passada para o papel.
Escrevia sobre o amor. Sobre a esperança. Sobre os amantes.
Depois juntava tudo numa mistura explosiva de som.
E em cada verso, mais uma letra de musica surgia, mais uma melodia para os seus ouvidos. Só para os seus… não as dividia com ninguém.
Era um segredo só dele. As musicas que escrevia para o mundo não fugiam daquelas linhas. Porque era algo tão dele, que não sabia a quem mais havia de interessar.
A mulher já passava a esfregona no chão. As luzes começavam a perder a vida.
O mundo estava agora a adormecer naquela sala. Lá fora acabara de despertar.
Mas ele continuava sentado de frente para o balcão, de mão no copo de whisky, o mesmo whisky de há tantos anos, e na outra um cigarro. O mesmo cigarro de enrolar que fuma tantas e tantas vezes por dia.
Era hora de partir. A casa já o esperava muda e impaciente. A almofada amarelada era a única que lhe afagava o pensamento. Os lençóis corroídos cobriam-lhe o corpo.
A casa não era tão pequena assim. Tinha uma varanda enorme sobre o nada.
Divisões desalojadas de moveis. Vazias de conteúdo. Salas grandes às quais ele dava vida com som. Achava ritmo em qualquer pedaço de madeira, tambor ou sucata. E aquela casa enchia-se de gente. Estranhos que nem ele conhecia. Pessoas que habitavam as letras das musicas que ele compunha.
Era o som que lhe alegrava os dias cinzentos. Era a musica que dava àquele homem uma esperança de recomeço todos os dias. Mas aquele encontro não surgiu por acaso.

(…)

Naquela manhã o céu estava límpido, fios delicados e quentes sobressaltavam em pontos do cubículo. Loiris estava linda, resplandecente…a sua presença emergia novo ar à casa…(aliás a qualquer lugar)… a sua palidez transpirava bondade. A esbelteza era contagiante…!
A primavera de outrora, o grito, o canto, o cheiro…golpeavam no ar que se respirava. Estava ele a contemplar Loiris, “Se pudesse, ficava aqui eternamente…!”
O medo beijava a sua face… o presságio de más novas infestava as redondezas.
Brutalmente, ouviu-se :”Vou-me embora amor”. O choro, em pranto, espalhou-se como se de uma sentença perpetua se tratasse. Tal frase foi como um soco para ele…e bem no fundo do seu coração. Ficou fora de si, estático. Tal sensação se equiparava com um sintoma de desmaio. O tempo ficou congelado…ela pressentindo tal abraçou-o! O contraste era horripilante … o choro fustigante dela e a brancura rígida dele, mas a ferida interna jorrava e muito. As forças já tinham fugido…nenhuma palavra emergia na mente dele, até que ela disse algo “Querido sabes bem que te amo, mas não estou pronta para viver a vida contigo..porque…, porq-u–e…não estou!”. Nele a brevidade de uma estátua continuava…parecia um morto-vivo. “Eu sei que tu não compreendes…mas entende-me…não quero que sofras…nem eu…que já…”, a fugacidade deu-lhe forças para interromper e de costas para ela murmurou, “W–h–y? Why Loiris?”
Algo não batia certo naquele quadro…O amor existia nas duas criaturas, nos seus corações…o calor da cumplicidade entre eles efervescia, mas algum enigma por ali deambulava. Novo choro atacou Loiris…e ele ficou muito tocado e abraçou-a ficando depois virado cara a cara para ela…! As lágrimas brilhavam de tristeza…as rosadas bochechas cintilavam de vermelho…o nariz pingava abundantemente…Loiris deixou cair a cabeça no ombro dele…e ele de novo levantou…e surgiu o terramoto psíquico “Tenho cancro amor…vou morrer não tarda!”.
A queda foi inevitável. De joelhos no chão com a cara apertada na barriga de Loiris, …, começou estranhamente,… a dar uma música de amor que eles gostavam muito, uma música que eles cantavam juntos…! A letra já ia no adro, “… aqueles que têm coragem para amar deveriam ter coragem para sofrer…vamos conseguir…va–mo-s, la, la .., la-láaaaa, …lá-láaaa…”.
Põe-se de pé e vigorosamente disse: “Vamos conseguir Loiris, vamos sim amor…não te abandonarei!”… O silêncio conjugou-se com o choro dela…e a ferida interna dele.
(…)
Naquela manhã ainda ficaram juntos. Ainda tomaram “Monte Velho” juntos na varanda a olhar o céu. Ainda fizeram promessas de amor eterno. Ainda dormiram abraçados. Outro dia chegou sereno e calado. Um frio imenso cortava a cama e as duas almofadas. Ele estendeu o braço para o primeiro beijo da manhã, mas do outro lado só enlaçou uma almofada vazia. Ela não estava. Nem ia voltar a estar. Saiu muito antes dele acordar, deixando apenas a recordação de um amor naquele som primaveril.

(to be continued…)

(Fontez&Amy, inspiration)

Escrito por fontez

Novembro 4, 2007 às 2:24 am

Publicado em histórias

5 Respostas

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  1. Gostei meninos.
    Apesar dos estilos diferentes, percebe-se o esforço pela aproximação…
    Como imaginam certamente, consigo perceber, tal como os outros leitores habituais, quem escreveu o quê. A Amy, como sempre é uma romantica, descreve a solidão do abandono com “poesia”. O Fontez, é fatalista, anuncia sem pudor a morte da personagem… mesmo tentando descrever um amor enorme, acaba por “desistir”…
    Espero para ver esse final…
    Para já parabéns pela parceria.

    Beijos aos 2!

    Marta

    Novembro 6, 2007 em 11:55 am

  2. Pois, mas este texto teve alguns senãos… o Sr. Fontez, como sempre é muito positivo e não quer de maneira nenhuma um final trágico para “ele”. No entanto eu já sou da opinião de que a tragédia pode ser igualmente bela. E que nem todos os finais tem necessáriamente de acabar bem.
    Por incrivel que pareça o Fontez anunciou a morte dela, mas eu fui mais longe e fiz daquela história uma verdadeira tragédia…. hehehe

    Como sempre eu sou a gótica de serviço e o fontez, o anjo salvador.

    Ainda estamos a discutir o destino “dele”

    beijinhos

    Plim!

    Novembro 6, 2007 em 6:20 pm

  3. ninguem morreu…a fatalidade ainda nao chegou…!
    nem sei se chegará…só o destino sabe.

    fontez

    Novembro 6, 2007 em 6:46 pm

  4. :)

    Bem, caro Fontez, mil perdões!
    A Amy é que é má! :D
    Tu foste só desajeitado a dar a noticia.
    Fico à espera do fim da estória.

    Beijo aos 2!

    Marta

    Novembro 7, 2007 em 12:29 pm

  5. Hoje atrevo-me a comentar.
    Que a música que se compõe não deixe de ser musica só porque alguém não está mais ao nosso lado. Que o coração não deixe de cantar!

    Belo texto!
    Parabéns

    Fa-

    Fa menor

    Novembro 9, 2007 em 9:36 am


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