a música (II)
O vazio…a solidão…infestavam o ambiente do singelo quarto. Ele a olhar para o tecto e a reaviver os momentos passados. “Eu sei que tu não compreendes…mas entende-me…não quero que sofras…nem eu…que já…” Tal frase dita pela sua querida Loiris frevilhava no seu coração. Sem a presença dela as forças foram rapidamente consumidas e o desprovido calor humano acentuava mais a dor nele. Subitamente as janelas se abriram e uma folgada de ar fresco abraçaram os lencois da cama empirrando com a preguiça dele. Saiu da cama devagar com as forças que lhe restavam…e foi à casa de banho. Antes de tudo, olhou-se ao espelho e reparou que tinha a cara osfucada pela mágoa. “My god, why?wh—y?”…
De cabeça inclinada para o chão jorrou lagrimas de dor…
Tocou o telemóvel… “Olá migo tás fine? Hoje não vais trabalhar, ou não precisas de boleia?”…diz o interlocutor. Silêncio intrometeu-se na ligação…”Migoo, tás aí? Tás-me a ouvirr?”…timidamente ele murmorou algo…”sim estou…e não vou trabalhar…!”, “então que se passa? Tás doente?” …”estou cansado Roni…não vou sair de casa” “cansado? Ei pah, passa-se algo…” “preciso apenas de descansar, de estar sozinho…tá…e olha hoje à noite não vou sair para tomar café tá…! Preciso mesmo de descansar e pensar…” “pensar?! Uii, passa-se mesmo algo migo…!”, “Roni, não insistas…não te preocupes comigo tá, …, agradeço a inquietação, mas apenas é isso…preciso de descansar e estar comigo…pensar…!”, “ok caro amigo…ok…sabes que podes contar comigo…depois dá noticias tá?”, “darei…um abraço carissimo e bom dia de trabalho…”. De novo o silêncio a assombrar a casa. Ele desejou que a conversa durasse mais tempo. Levemente foi à sala e ligou o radio, …, estavam a dar noticias…as tipicas noticias, ora do transito, ora das politiuices, ora de desporto…enfim…virou-se de costas, cabisbaixo…estava ele a chegar ao quarto e … aconteceu algo que travou o passo…começou a dar a música, a tal…! Novo ataque de dor consumiu-o, mas desta vez sua alma, estranhamente, sofreu um enxame de forças positivas. “Vou à luta, não posso deixá-la carregar a dor, a cruz sozinha, não posso não! My God ajuda-me…my God ajuda-lhe!…”. E foi precisamente nesse dia, nesse momento que ele decidiu abandonar o emprego para ir ter com ela. Ele trabalhava numa empresa de consultoria, ganhava bem, era um trabalhador com peso…era pois um bom profissional e como tal seus superiores gostavam dele. Ela vivia a aprox. 300km dele. A distância foi uma matreira para eles, mas como eram fortes o amor florescia sem medo. Agora, a situação era outra e ele decidiu ir viver com ela…acompanhá-la na dor…dar-lhe alegria…pessoalmente!
Estava um tempo nubloso…o vento roncava de tal forma que ele teve de ir fechar as janelas do quarto. A ansiedade era tanta que pouca coisa pos na mala. Vestiu um casaco, fez a cama, deu uns goles de leite fresco, saciou umas bolachas de chocolate, e lá foi…! A descer as escadas do prédio ouvia o agitado tempo lá fora. Chegado ao carro, meteu a mala no banco de trás e rapidamente entrou no carro. Estava pois muito vento e frio e pelas sombrias nuvens corria o presságio de um brusco temporal. Antes de arrancar telefonou à sua mãe a contar-lhe a decisão que acabou de tomar.
- Tou…Mãe tu sabes…eu preciso ir ter com a Loiris, ela precisa de mim…
- Mas tens a certeza que será essa a melhor decisao filho?
- Sim, não há nada mais importante para mim do que a Loiris…
-Pensa bem filho…
- Já pensei mãe e já tomei a minha decisão. Quando chegar ligo-te…
-Está bem filho, cuidado, está mau tempo…
Estava um tempo horrivel, chovia muito, o vento dançava que nem louco…! A viagem cheirava a monotomia exarcebada. O nevoeiro deambulava em força pelas redondezas. PUMM! Um choque frontal. Um carro fora de mão embateu em força no carro dele.
“Tou, Loiris…minha que—rii-daa Loiris…”, o pranto de choro e de dor agitava o telefone. Era a mãe dele a tentar falar do sucedido, do acidente. “Tou, dona Amélia, como está?” … “Q-u—er-ia..,dizer algo enquanto me sobram forças para tal…!”, “Meu filho teve…” (choro de pranto) “Que se passa dona Amélia?” Loiris teve um sobressalto de aflição, de dor antecipada, de um sopro de pressagio negativo…”Que se passa dona Amélia, que se passa?…:( conte, conte…:( “ “me—u filho, meuu querridoo filho teveee um acidente graveee…e estáa agoraa no hosspitaal em esttaaddo muiiito crriittiiccoo”. Loiriss caiu…! Foi como se as forças tivesse sido totalmente sugadas por uma força negra. A voz da velha mantinha desperta Loiris. Combinaram se encontrar em casa de Loiris, pois ele estava internado num hospital perto de casa de Loiris…!
- Como é que isso pode acontecer? Sinto-me tão culpada por tudo isto… – desabafava Loiris – eu não devia ter-lhe contado, eu… eu …
- Ele gosta muito de ti Loiris e por amor não medimos esforços…
- Foi a decisão mais bondosa que vi no meu filho, sacrificar-se pelo amor por para abraçar a dor e caminhar ao teu lado para carregar a cruz do sofrimento! Foi sim a decisão mais …(pranto de choro) …Ele que abandonou o emprego para vir ter contigo, ele que…o amor…
- Eu não queria ser um peso na vida dele… sinto muito por tudo isto… eu nunca iria perdoar-me se… se…
- Não digas nada filha…
Loiris já não ia ao tratamento de quimio às 4 dias…a fraqueza atacava-a de forma brutal. Pouco comia…pouco dormia…estando todos os dias ao lado dele, a olhar para ele, a falar para ele, mesmo estando este em coma. Punha muitas vezes a musica deles, a tal…que era mais, do que nunca, motivadora ouvi-la, senti-la…!
Coração de Loiris deixou de bater. Sua mão agarrada à mão dele…estava fria…! O desaparecimento do calor humano provocou o despertar do coma dele. Ele acordou e olhando para ela… Parecia um sonho, um pesadelo, a sua amada, a sala fria e branca do hospital, estaria vivo ou morto?! Ainda confuso tentava falar com Loiris, que insistia para que não se esforçasse e se mantivesse em silêncio… seus olhos falavam… na língua do amor não era preciso palavras… Aos poucos a sua consciência foi voltando e tudo à sua volta começou a fazer sentido. Loiris tentava conter-se, não queria mostrar-se fraca, queria apoiá-lo naquele momento difícil, embora também ela estivesse fragilizada. O olhar inquieto dele assustava-a, estaria a sentir dores? A presença do médico parecia não acalmá-la…
Com o passar do tempo, ele estava melhor, já conseguia fazer grande parte das suas tarefas diária sem grande esforço e Loiris estivera sempre do seu lado. Trocavam forças entre si, dia após dia, havia algo muito forte entre eles… Loiris buscava forças na recuperação dele e ele buscava forças na vontade que sentia de ajuda-la a vencer a doença, que ameaçava a felicidade de ambos.
No entanto, era evidente o desgaste que ambos sofriam com tudo que se estava a passar… se por um lado estavam unidos, por outro o sofrimento tomava conta deles… não queriam subcarregar um ao outro… Por isso, aos poucos foram se afastando, involuntariamente. Até que um dia Loiris disse-lhe que talvez agora precisassem estar um pouco longe um do outro, para recuperar do stress que tinham passado durante os últimos meses…
Foi provavelmente a conversa mais dificil que alguma vez tiveram, mas Loiris sentia a necessidade de estar sozinha para encontrar ela propria a sua força, a sua vontade de viver, o seu amor proprio, só assim a seu ver poderia viver a nova oportunidade que a vida lhe tinha dado. Ele porém não se pode conter perante tal noticia, as lagrimas escorriam-lhe pela pele pálida, enquanto ela tentava explicar-se… não podia acreditar, agora que estava tudo bem iriam separar-se? Tinha abandonado seu emprego, sofrido um acidente que quase lhe tinha tirado a vida… era impossivel conformar-se com tal decisão…
- Preciso que me compreendas… – tentava Loiris convencê-lo.
- Não me peças isso, por favor. Eu amo-te!
- Eu também, acredita.
- Não consigo…
Diante de tal resposta, imediatamente, os olhares descruzaram-se, ela virou-se e foi em direcção ao carro. A noite estava fria como nunca estivera, as estrelas apagaram-se, a lua escondeu-se nas nuvens e o jardim, onde antes costumavam estar, parecia-lhe agora um deserto. Deixou-se cair na relva, antes macia e suave, agora áspera. Enquanto chorava a dor em silêncio, a brisa nocturna trazia-lhe o perfume das flores,flores que outrora oferecera a Loiris carinhosamente , o silêncio enlouquecia-o, parecia ouvir a música deles, a voz dela, os sorrisos… barulhos estranhos perturbavam o seu sono, antídoto que agora ansiava, pois viver sem sua amada era pior do que muitos acidentes… Desejou ali ficar e morrer.
Plash!!!…E lá levou com um balde de água fria. Estava com a cabeça tombada no balcão com o seu copo de whisky vazio ao lado…!
Ele reviveu o passado pela dormência da bebida.
Compreendeu, enfim, porque amava a música, a tal…e porque a bebida era o seu grande amigo.
(A vida tem muitos caminhos…cabe a nós trilhar…)
(Fontez&Deza)
(thanks dear…e volta, deixa-te de coisas…)
Conhecia a história, mas desconhecia o final, gostei da reviravolta…
Beijinhos aos dois, mas principalmente a ti Fontez.
Boa semana!
Marta
Novembro 19, 2007 em 2:36 pm
“A vida tem muitos caminhos…cabe a nós trilhar…”
E existem trilhos pelos quais é melhor não seguir, acredita!!!
Beijinhos
Fa-
Fa menor
Novembro 20, 2007 em 4:47 pm