Longos percursos

Meet way

o baloiço

com 6 comentários

Está frio. Nunca mais lá chego. Fico com a sensação que estou a subir interminavelmente pelos degraus rígidos e húmidos.

“Será que ela vai gostar de me ver?” Como matuteia minha frágil mente…!
Há muito que não vinha aqui, desde a despedida da minha querida Loiris.
Deve faltar pouco…! A brisa nauseabunda que paira leva-me a crer que o condomínio impera pelo ócio.
Puxa…como me está a custar subir…!  Será que estou a subir para o céu? Admito que adoraria…iria encontrar concerteza minha amada. Iria abraça-la tão profundamente que não voltaria descer.

“As estrelas são tão lindas que o seu brilho nos cega de beleza!” – dizia sempre Loiris nas nossas noites de paz, abraçados pela noite a dentro, na poltrona micando o céu.
“Eu adoro a cegueira my princess, e tens razão no que dizes pois vivo a cegueira com paixão abraçado a uma estrela! E não quero ver mais, quero ser cego para sempre ao teu lado…!”

- Olá Taiki! – era a mãe de Loiris, que até me assustou um pouco…pois estava mergulhado nos meus pensamentos.
- Ol..á dona Mary!
- Que tens feito seu malandrinho? Há muito que não te via…!
- Tenho andado, divagando por aí…!
- Filho, eu sei que tens andado mal…mas sabes que a nossa querida Loiris está bem na casa de Deus e tem torcido por  nós…por isso começa já a sorrir antes que me chateie …!
Não querendo desanimar, lá soltei um disfarçado sorriso.
- Ohh, que sorriso tão maquilhado…ai ai,…entra, entra…!
Mal entrei, meu ser foi esmagado com a visão de uma lindíssima foto de Loiris presente no móvel do hall de entrada.
“Não imaginava que a cruz fosse tão pesada…as saudades, o teu vazio tem-me destruído my love…tem sim…!”. Estou diferente. Outrora egoísta, frio, rígido…e agora um mole, inseguro…quero lá saber de mim…! “Oh my God…”

- Um chazinho de cidreira assenta bem nesta humidade não achas lindo? – perspicaz era Mary a interromper quando pressentia tristeza.
- Não seria má ideia…! – (se bem que preferisse um whisky)
- Malandrinho, as tuas ironias não me escapam … rs … sei que adorarias um cálice com paladar escocês…mas sabes que a vida tem pernas não para se ficar acomodado na infelicidade…mas sim para andar, com coragem e alegria…não sabes?
Como admirava e invejava a forte alma da dona Mary.
- Só sei que nada sei.
- Ohh, não me venhas com Sócrates…já basta o nosso andar por aí com magalhães…eheh!
Soltou-se-me um sorriso genuíno desde que Loiris se foi.
- Yes, já te apanhei um sorriso verdadeiro, agora é só falar de outros magalhães e teremos uma noite de comédia..eheh! – ela referia-se ao vizinho James Magalhães que fez uma viagem com a esposa em contra-mão e que só deram conta do feito quando chegaram ao destino, sem estragos.
- Dona Mary, gostava de ir ao quarto de sua filha…! – estranho ter tido tal ideia.

- Oka..y filho mas o que…ok vamos… os dois que dizes?
- Po..de ser!
Como me custava … minhas pernas tão pesadas estavam…não do cansaço da subida, mas do medo de ficar afogado em tristeza.
-Vamos Taiki?

Estava tudo igual…tão arrumadinho, tão perfeito … comparável ao brilho de minha outrora estrela. Sinto meu corpo arrepiar…sinto-te Loiris…sinto teu ser me sussurrando.
Inesperadamente, dona Mary chora…e chora…!
“Minha querida filha…minha Loiris…minha menina…tão linda…!”
Como se empurrado por algo…abracei-a profundamente!

- Ohh Taiki, até as pedras tocadas pela dolência se esmorecem, ficando polidas de sofrimento…!
Tal desabafo fez confirmar o que suspeitava…que o calor da tristeza entra no mais ínfimo gelo que criamos no nosso coração. Já imaginava que toda aquela alegria era manobra de tapar a tristeza que dona Mary tinha. De repente Mary olha para mim. Tão profundos e angustiantes eles estão. Incisivo e molhado olhar espetado no meu. Ela me esconde algo, sinto!
Suas mãos frias em contraste com o calor da minha face…! Suavemente acaricia-me…e…
- Filho vais me perdoar?
- Mas…perdoar o quê? Não tenho nada para lhe perdoar…!
- Terás sim, e espero que me perdoes…!
- Mas…?!
- Perdoas-me Taiki?
- Mas o quê dona Mary? – já estava algo irrequieto.
Um presságio deambulava pelo o ambiente. Sinto.
- Lindo, vês aquele envelope na mesinha de cabeceira?
- Sim, vejo…

- Aquele envelope é para ti, Taiki…
- Para mim?! – Taiki continuava inquieto, mas agora ansioso também.
- Promete-me que vais ler o que lá está escrito com o coração, filho. Só assim poderás um dia perdoar-me e compreender tais palavras.
- Está bem dona Mary, mas eu não sei se… não sei…
- Não sabes se me consegues perdoar… eu compreendo. Vou te deixar sozinho enquanto lês… – e dona Mary retirou-se; parecia sofrer de uma dupla perda. Perder a amizade de Taiki poderia se tornar ainda mais doloroso que “superar” a perda da filha.
- O que tem este envelope? – não parava de se interrogar. Sinto as mãos frias e o coração acelerado, que ansiedade, que medo, que angústia! Talvez seja melhor não ler… talvez não esteja preparado… eih, não! Foi a minha amada que me escreveu esta carta, não a posso recusar… – contrariou os seus pensamentos e segurou a carta.

Taiki estava indubitavelmente confuso e inseguro. Resolveu despedir-se de Dona Mary, que nada disse, e ir vaguear pelas ruas da vila, pois as recordações daquele quarto eram demasiadas fortes para conseguir concentrar-se, parecia sentir ali a presença de Loiris. A meio do caminho, encontrou um jardim, verde e florido, um lugar sereno e familiar. Sentou-se num baloiço – e que belo baloiço! Enquanto baloiçava e ouvia o chiar das correntes, recordou-se da sua infância e de como sentia-se seguro e protegido naquela altura, na verdade, era esse sentimento que agora precisava…

-Vou abrir a carta! Está decidido! – Parou o baloiço e abriu vagarosamente o envelope como se fosse, de facto, uma verdadeira preciosidade que merecia todo o cuidado ao ser manuseada. A folha já estava amarelada, era mesmo a letra de Loiris, oh há tanto tempo que não via de perto algo da minha amada! Aproximou-se um cão vadio e interrompeu a admiração de Taiki… “Oh amigo, não tenho nada para ti…- e fez festinhas ao cão – mas vamos lá ouvir o que tenho aqui…”

“Querido Taiki, a razão pela qual te escrevi esta carta foi não ter sido capaz de te ver sofrer a minha dor e a minha ausência. Como poderia suportar olhar-te nos olhos e ver todas as estrelas apagadas? E o teu sorriso escondido? Não conseguiria, Taiki.

Prepara agora o teu coração porque o que te vou confessar pode ser muito doloroso para ti, meu querido, mas tens de saber, não te consigo ocultar isto para sempre, não é justo para ti! Mas espero que consigas perdoar-me a mim e a minha mãe que durante todo este tempo tem sido a minha cúmplice e que suponho que esteja a precisar imenso da tua amizade, neste momento.

Há muito tempo, foi-me diagnosticada uma doença rara, aparentemente assintomática. Eu sempre soube que a minha esperança de vida era muito reduzida e quando te conheci, Taiki, desejei como nunca viver para sempre, ou pelo menos, viver mais tempo do que aquele que me estava destinado. Na verdade, eu já só tinha mais um ano de vida… não fui capaz de te dizer isso, Taiki! Perdoa-me ter feito planos contigo sabendo que a minha vida já está numa fase terminal e a qualquer hora o meu coração pode parar. Se calhar, não deveria te ter feito perder tempo comigo, mas se estou viva até hoje, 5 meses a mais do que estava previsto, é graças ao teu amor…obrigada!

Taiki é com muito carinho que te peço: não deixes de realizar os teus sonhos, quer eu esteja ao teu lado ou não, eu estarei sempre no teu coração. Nunca te esqueças disso, meu amor! Quero que sejas feliz, quero que concretizes todas as coisas que me contas hoje… não quero que deixes a tua vida tornar-se apática, não quero que pares os nossos planos só porque já não posso estar ao teu lado. Continua a lutar, luta por mim, vive a vida como não pude viver, por favor, Taiki, não cruzes os braços nem desperdices a oportunidade de viver e ser feliz.

E perdoa-me, eu preciso que me perdoes, Taiki!

Tenho de despedir-me, vou passar hoje a noite no hospital, tenho medo de fechar os olhos e nunca mais voltar a ver-te… mas ficarei para sempre contigo! Um grande beijo e… tens uma missão, lembras-te? Cumpre-a por nós.”

Taiki ficou anestesiado… enquanto lia a carta, pareceu estar mesmo a ouvir a voz da sua amada Loiris, não pôde interromper a leitura, absorveu aquelas palavras como se isso fosse o que agora o mantivesse a respirar!
Não chora, não sorri, não grita, o seu mundo parou naquele baloiço. Que deserto na alma!

Conseguirá Taiki recuperar o fôlego?

(F&Deza)

 

Escrito por fontez

Novembro 23, 2008 às 11:52 pm

Publicado em histórias

6 Respostas

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  1. liked.
    thanks Deza.

    Fontez

    Novembro 24, 2008 em 1:31 am

  2. Romancista e ao mesmo tempo, real…boa escrita….. (invejo)..A simplicidade aliada a clareza….

    Luís Fontes

    Novembro 24, 2008 em 7:48 pm

  3. caro primo,
    é apenas uma história :)

    mas thanks pelo comentário.
    (o mérito está na dear Deza)

    fontez

    Novembro 25, 2008 em 12:31 am

  4. Gostei de te ler aqui novamente e neste registo.
    História triste… mas bonita (paradoxal, mas percebes)
    As recordações ficam sempre, mas não se pode ficar amarrado a elas. Há que seguir em frente que o mundo está à espera!
    Beijinho

    Fa

    Novembro 25, 2008 em 11:12 pm

  5. thanks pela visita dear Fa.
    Falaste bem.
    tristeza, bonita, paradoxal.
    Uma tríade que voa pela mente.

    bj

    fontez

    Novembro 26, 2008 em 5:02 pm

  6. Passei…
    procurar o fio à meada ;)

    Bom Natal

    Bijinho

    Fa menor

    Dezembro 22, 2008 em 7:00 pm


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