a melodia
Enquanto caminhava em direcção a casa de Stella, toda a vontade impulsiva que o assaltara poucos minutos antes parecia desaparecer repentinamente. Quanto mais se aproximava, mais lhe tremiam as pernas e os pensamentos invadiam-no, sucedendo-se compulsivamente, sem lhe darem descanso: – O que irá pensar Stella por me ver a esta hora em sua casa? E o seu avô? Não irá chatear-se com Stella por ver àquela hora um estranho em sua casa? Estaria a fazer bem? Não seria melhor deixar para outro dia esta tão desejada visita a Stella? Como irá reagir Stella? Não, que tonto sou!!! Vou-me embora… Mas… Já que aqui cheguei… Debatia-se assim interiormente com uma enorme vontade de ver Stella, mas também sem vontade de a desiludir e acabar por estragar esta amizade com a sua falta de paciência… Mas que coisa!!! Porquê sempre esta luta na sua mente??? Esta incerteza de estar a ser invasivo e esta vontade da companhia de Stella… Qual delas iria vencer esta noite?
Chegou Taiki aquela casa cor-de-rosa onde morava Stella, aquela casa ali tão perto que hoje lhe tinha parecido tão distante… É interessante como o tempo parece tanto ou tão pouco, dependendo da intensidade com que o vivemos e das decisões que precisamos de tomar… E ali estava ele com mais um dos seus dilemas existenciais… Tocou à campainha e aguardou o resultado de um tão pouco lúcido acto… Passados poucos segundos Stella encontrava-se à sua frente:
- Taiki? Que aconteceu?
Taiki estava lívido…tanto tempo naquele percurso para chegar a sua casa e nem sequer foi capaz de pensar no que lhe diria… Ficou momentaneamente sem reacção… De tal modo que Stella chamou-o à terra:
- Taiki? Taiki? Estás bem?
- Haaa… Stella, sim claro! Desculpa… Está tudo bem! Passei por aqui e resolvi fazer-te uma visita para ver como estavas! Desculpa se fiz mal, se não é boa altura… era só…
- Ok, Taiki – interrompeu Stella – não precisas de dar mais justificações! Fizeste bem em ter passado, fico feliz por te ver. Queres entrar para tomar um chá?
Taiki nem queria acreditar no que estava a ouvir, Stella parecia feliz por vê-lo e convidava-o agora para um chá… Não lhe parecia verdade!
- Sim, claro, é com todo o gosto que tomo um chá contigo, minha querida amiga. Espero não incomodar e não chatear o teu avô, não quero criar problemas para ti.
- Não te preocupes, não chateias nada e quanto ao meu avô já está a dormir. Só precisamos de fazer pouco barulho para não o acordar, embora tenha um sono pesado, não te preocupes.
- Entra!
- Obrigado, minha amiga! É uma grande honra e uma alegria imensa estar aqui contigo. É que, por vezes, a solidão é demasiado pesada para ser vivida… É bom ter amigos com quem partilhar o que sentimos e poder falar abertamente.
Stella olhou o amigo com um misto de ternura e admiração. Ternura por aquela pessoa fantástica que estava à frente a precisar de carinho e compreensão, a quem lhe apetecia abraçar com um abraço de sincera amizade e admiração pela sua sinceridade. Também ela gostaria de ser capaz de dizer assim abertamente quais as suas necessidades, mas não, para ela sempre foram mais importantes o que os outros sentiam e esperavam dela do que as suas próprias necessidades. Talvez isso se devesse ao facto de, desde cedo, ter tido a necessidade de cuidar dos outros, esquecendo-se a si mesma. O facto é que não era capaz de dizer assim abertamente tudo o que lhe ia na alma.
- Óh… Taiki, até fico envergonhada… Mas, diz-me, meu amigo, o que andavas tu a fazer a uma hora destas para passar por aqui? Já me contas essa história bem contada, primeiro vou preparar o nosso chá.
Taiki também estava envergonhado! E agora o que é que eu vou dizer, pensava enquanto Stella aquecia a água do chá.
- Vá Taiki, estás a deixar-me curiosa…diz lá amigo!
-Bem…não é nada de especial…apenas estava em casa sozinho e lembrei-me que podias fazer-me companhia…e…
-Ah!! Então era mesmo só isso! Estava a ver que era alguma urgência…
Não era de facto uma urgência para Stella, mas para Taiki tinha sido uma espécie de necessidade urgente ter a companhia da amiga.
Enquanto Stella servia o chá, Taiki observava a delicadeza com que Stella fazia cada movimento. Planava um silêncio na cozinha…
- Então e o teu avô? – tentou Taiki meter conversa enquanto punha açúcar no chá.
- Ah já está a dormir há algum tempo! Conta mais coisas, Taiki.
- Eu já tenho contado muitas coisas, fala-me sobre ti agora…
Stella bebeu um grande gole de chá e pela primeira vez com um olhar cabisbaixo disse:
- Não tenho muito mais o que dizer sobre mim… os meus dias não são muito diferentes do que já viste. Dedico imenso tempo a cuidar do meu avô e desta casa e sempre que posso faço uma pausa ali… – e apontou para a sala de onde se via ao pé da porta um piano.
- Pois, todos temos rotinas, eu percebo… mas que óptimo, tocas piano?!!
- Errr… não sou pianista a sério, o que toco é o que as minhas mãos inventam no momento, não sei tampouco ler uma pauta musical. Sei algumas melodias de cor de tanto ouvir a minha avó tocar, quando ainda era viva.
-Oh! Adorava ouvir-te tocar, um dia podes tocar uma música para mim? – Entusiasmou-se Taiki com a novidade.
- Claro! Vamos até lá… – a hora era avançada, mas o avô de Stella provavelmente não se ia importar com a música, até porque não a podia ouvir, devido a fraca audição que tinha.
Taiki sentou-se então no sofá e Stella abriu o piano, sentou-se no banco, respirou fundo e começou a tocar… wow, era uma música linda, invadia a alma de Taiki e enchia-lhe o peito. A sala parecia ter sido tomada por uma atmosfera mágica. Taiki fechou os olhos e manteve-se concentrado apenas na melodia que ouvia. Que refresco, pensava e sentia ele.
- Taiki, Taiki… – Stella tentava “acordá-lo” enquanto batia-lhe no ombro. – Então gostaste da música que toquei para ti? – e pôs-se diante do amigo à espera de uma resposta.
- Ahh…opss…desculpa. Fiquei absorto. Os teus dedos produziram algo de muito belo e suave. Parece que estava a voar ao lado da brisa tocando ao de leve nas folhas das árvores…vi o sorriso dos passaros…a ternura presente nos ninhos…
- Ohhh Taiki não me deixes envergonhada…!
- Fui sincero. Senti algo mágico na melodia. Não sou adepto de dizer coisas só para agradar.
Stella sentiu-se elogiada. Gostou.
- Será que o teu avô ouviu?
- Creio que não. Ele já dorme há algum tempo e a audição não é das melhores.
Algo nervoso por não saber o que dizer mais, Taiki desafiou Stella:
- Adorarias tocar outra música?
- Gostas de ouvir músicas péssimas é isso eheh?
- Stella, o mar é algo péssimo?
- Mas a que propósito vem o mar? E não, não é péssimo mas sim algo de contagiante, imprescindivel e tocante.
- Isso que acabaste de dizer, é o que eu sinto da melodia que sairam dos teus dedos.
- Ohh Taiki, não sejas assim…
- É preciso trazer uma máquina das mentiras para saberes que falo verdade?
Stella e Taiki encheram-se de gargalhadas. A serenidade deambulava por eles.
Subitamente acontece o inesperado.
gosto pois!
deza
Agosto 9, 2009 em 10:50 am
Suspense!…
Afinal voltou a música para Taiki! Que bom!
Bjins
Fa menor
Setembro 11, 2009 em 9:40 pm